Por Celso Ferreira Gomes – Centro Excursionista Mineiro – Com uma compilação e reescritura de e-mails de Celso Ferreira Gomes, Pedro Bugim e Gustavo Xaxá Carrozzino.

O final de semana de 16 e 17 de junho de 2012 foi um dos mais espetaculares já vividos em Ferros. E olha que isso é uma afirmação ousada, haja vista o quanto é difícil superar o ótimo. Mas foi isso mesmo o que ocorreu.

Tivemos a presença de 16 excelentes pessoas: Tonico, Nádia, Gustavo Piancastelli, Gislene, Eustáquio, Maria Fernanda, Pedro Bugim, Raí, Xaxá, Julinho Cardoso, Milson, Rodrigo Magalhães (o filho mais novo do Tonico), Tamires (companheira do Rodrigo), Alaci Júnior (Juninho, amigo do casal citado), Glesse e Celso.

Foram realizadas, pelo Gustavo Piancastelli, as filmagens para finalizar o material do programa Casca Grossa dedicado a Ferros. Temos, desde já, muito a lhe agradecer por essa investida para a divulgação do pólo de Ferros. E agora são 122 vias de escalada em Ferros, sendo 92 delas no Vale do Roncador, incluídas, nessa contagem, as três vias do Subsetor Cachoeira. Estamos a postos para a centésima via do vale!!! Que venha essa magnífica senhora.

Como é próprio à índole do povo, registramos, o quanto pudemos, as atividades dos dois dias: altíssima “produção”. E vejam só:

Conquistas.

Sábado, 16 de junho de 2012.

“Pr. Rio de Mão Dupla” (3º VI E4 – 140m – Mista). Parede Principal, Setor Clássicas Longas. Por Pedro Bugim e Maria Fernanda. Seu nome é uma alusão ao rio que, no trajeto BH-Ferros, com o Milson, os (des)orientava. Nas palavras do conquistador Pedro Bugim, essa “por pouco não foi a primeira via totalmente em móvel da região. Contando com três enfiadas e apenas dois grampos, esta via lembra muito as vias de Salinas/RJ (tirando a extensão, que é bem menor), pois é feita em sua maioria em  móvel, mas tendo que ‘garimpar’ as proteções que nem sempre são óbvias, em buracos e fendas esparsas. A P1 é em móvel e suas outras duas paradas, em grampo único. A P3 compartilha um grampo da ‘Eu Não Sou de Ferro’, local onde a via acaba. Apesar da maioria dos lances não passarem de IV grau, esta via possui um crux bem definido, em uma barriga abaixo da P3, protegida com microfriends e ball nuts delicados”.

 “Pr. Up Ester” (5º Vsup E1 – 100m). Parede Principal, Setor Clássicas Longas. Por Pedro Bugim, Xaxá e Milson. Conquista que homenageia a escaladora carioca Ester Binsztok, falecida recentemente, aos 33 anos. Novamente nas palavras do conquistador Pedro Bugim, essa é uma “via belíssima, que se inicia em lances bem verticais e complexos, alternando cristaleiras, aderências e abaulados, sempre com grampeação justa e possibilidade, após o terceiro grampo, de proteção móvel opcional, ajudando no psicológico.” E nas palavras do conquistador Xaxá Carrozzino, “a conquista foi finalizada junto com os últimos raios de sol, de onde pudemos ver que, apesar dos pesares, a vida continua, linda e bela. E foi sob essa atmosfera que fizemos uma oração a ela, oferecendo-lhe a conquista”. Há que se destacar também o advento de um novo conquistador nas paredes de Ferros: o Milson. Seja bem vindo, nosso caro.

“Arco de Ferros” (VIIa – 50m – Mista). Parede Principal, Setor Clássicas Longas. Por Gustavo Piancastelli, Eustáquio Júnior e Celso Ferreira Gomes (esse último, na base…). Nome em alusão à forma em arco da via. Sua base se localiza à direita do projeto “Purgatório”, seguindo por uma fenda com proteções móveis que se desenvolve sempre para a esquerda. No final da fenda, a proteção passa a ser fixa, com grampos de ½ polegada, seguindo constantemente uma linha bem definida em arco para a esquerda. Termina na “Conquista do Paraíso”, da qual toma “emprestado” um grampo. Estávamos em dupla, Gustavo conquistando e eu na sua segurança, e já tínhamos iniciado tarde devido às diversas filmagens fizemos ao longo do caminho. E a conquista seguia lenta, na medida da dificuldade da via. Tonico chegou ao local um tempo depois, o que foi providencial para filmar a escalada do Gustavo. Mas tínhamos um problema: desequipar a via após a sua conclusão. Eu até admitia subi-la, mas, claro, toda em artificial, que isso não é via para mim em livre. Foi quando chegaram a Gislene e o Eustáquio, que voltavam da via “Jardim do Éden”, ali perto. Também providencial, que nem mesmo em artificial eu faria aquele trajeto na pedra em tempo hábil que nos permitisse chegar à trilha do vale ainda com a luz do dia. Assim, “declinei” da minha participação e o Eustáquio, após insistir muito que eu fosse, “… afinal de contas você já está aí há um tempão na segurança, a vez é sua…” e coisas assim (mas ele tinha mesmo é as mãos coçando para subir…), foi e escalou aquele absurdo rapidinho e, isso é muito importante, trouxe de volta, sãs e salvas, as minhas costuras. Como a via é em arco, rapelaram pela “Conquista do Paraíso”, em linha reta, e saíram bem à esquerda da base onde se iniciou a conquista. Nesse meio tempo do rapel, a Gislene e eu recolhemos toda a carga que estava na base, uma infinidade de móveis excedentes, equipamento de filmagem, inclusive tripé e outras tantas tralhas, além de nossos próprios equipamentos de excursão e escalada, e fomos, tal qual mulas muito carregadas, duas mochilas per capita, para o ponto onde os aguardaríamos. Novamente providencial, pois a Gislene, todos o sabemos, é um fenômeno no quesito “princípios fundamentais e avançados do transporte humano de carga em terreno pavoroso”. Ganhamos a trilha ainda com luz. Na volta, com as cargas já redistribuídas, ninguém conseguia acompanhar o passo muito rápido do Gustavo, que, desde horas antes, já estava reclamando direto de uma dor constante numa das pernas. Nem mesmo a Gislene conseguia.

 

Domingo, 17 de junho de 2012.

“Pr. Tonico Magalhães” (3º IV E1 – 120m). Parede das Aderências, Setor Central. Por Pedro Bugim, Celso Ferreira Gomes e Maria Fernanda. Via dedicada ao decano Tonico Magalhães, precursor da escalada moderna cá entre nós e formador de muitos e muitos escaladores mineiros, a maioria dos quais já avançados na idade, eu inclusive. Essa homenagem já era um acerto prévio alinhavado entre eu, Pedro Bugim e Fê, mas precisávamos de uma ocasião na qual o Tonico não estivesse presente. Ah, claro que aproveitamos essa oportunidade. Era a minha centésima conquista, 98 das quais com o próprio Tonico, era em Ferros, no Vale do Roncador e ao lado da “Social Club“, via que eu trago no coração. E, afinal de contas, estivemos em dupla, Tonico e eu, na sua centésima conquista, a “Chaminé das Cem”, há um pouco tempo atrás, em 4 de julho de 1990! Isso foi no lá no Vale da Perseguida, no 1º Grupo do Morro da Pedreira, na Serra do Cipó, numa época na qual ainda acampávamos no terreiro da Dona Maria, ora já falecida. E mais, foi, a primeira via que eu guiei. Tudo em móvel. Então… Mas votando à via “Tonico Magalhães”: ela é composta de três esticões de 50m, 30m e 40m, com paradas duplicadas no final do primeiro e do segundo. Tem o seu início à direita da “Social Club”, em ponto bem acima de sua base, e termina na própria, em grampo único “emprestado”. Pedro Bugim guiou a primeira e a terceira enfiadas e eu guiei a segunda. Nas palavras de Pedro Bugim, “… conquistamos, no domingo, uma boa linha na Parede das Aderências, Setor Central, ao lado da clássica ‘Social Club’. Esta foi a centésima conquista do Celso e por sugestão dele (a aceitação unânime), colocamos o nome de ‘Pr. Tonico Magalhães’, nosso grande amigo e sempre ótimo anfitrião em Ferros! Esta via passa predominantemente por lances em aderência, contando com algumas cristaleiras a abaulados, terminando na via ‘Social Club’. Por curiosidade, a centésima conquista do Tonico contava com o próprio Celso na ponta superior da corda!”.

Repetições.

Sábado, 16 de junho de 2012.

“Jeca Tatu” (3º IVsup – 90m) – Eustáquio e Gislene.

“Jardim do Éden” (6º VIIa – 220m – repetidos os primeiros 50m) – Eustáquio e Gislene.

“A Decadência da Bufa” (4º IVsup – 125m) – Julinho e Raí.

“Cordeiro de Deus” (3º V – 70m) – Julinho e Raí.

“Eu Não Sou de Ferro” (5º V – 220m) – Xaxá e Milson.

“Pele Vermelha” (IV – 45m – repetidos os primeiros 30m – top-rope) – Rodrigo, Glesse, Tamires e Juninho.

Domingo, 17 de junho de 2012.

“Expo CERJ!” (3º IIIsup – 160m – E4) – duas cordadas: Julinho e Raí; Xaxá e Milson. Primeira repetição de uma via realmente exposta.

“Maria Diz Graça” (V – 45m – repetidos os primeiros 30m – top-rope) – Eustáquio, Tonico, Gislene, Glesse, Tamires, Juninho.

“Ferro na Boneca” (VIIa – 20m – top-rope) – Eustáquio, Tonico, Gislene, Glesse, Tamires, Juninho.

E foi isso, caras comadres e caros confrades. Foi bom demais. E no feriadão de sete de setembro tem mais e tem de novo que, afinal de contas, a vida segue e há que vivê-la. Invasão conjunta CEM – CERJ – CEB. Quem for, com certeza estará presente na conquista da centésima via do notável Vale do Roncador. Confesso que é ele a menina dos meus olhos. E gostaria de dividir isso. Agradece-se desde já a quem comparecer. É bonito ver aquelas paredes salpicadas de cordadas!

CascaGrossa em Ferros
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