Relato: Rafael Gribel

Feriado de 1o de maio já estava guardado para a ATM do Rio. Esse ano a programação seria maior, seguindo as comemorações de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, e a FEMERJ e a CBME aproveitaram para fazer uma versão mais enxuta da SBM – Semana Brasileira de Montanhismo (www.rionasmontanhas,com.br). A programação incluía também um Congresso Brasileiro de Montanhismo, e fui convidado a participar como representante da FEMEMG. Com isso, precisaria estar no Rio no dia 1o de maio, sexta-feira.

Saí do trabalho na quinta correndo, e às 18:30 conseguimos terminar de arrumar tudo e pegar a estrada para o Rio. O caminho de Alfenas para o Rio é bem cansativo, principalmente por cortar toda a serra da mantiqueira, o que aumenta consideravelmente o tempo de viagem. 440km em quase 7 horas. Chegamos no Rio por volta das 1 e meia da madrugada.

Acordei cedinho na quinta, pois o congresso começaria as 8:00. Durante o dia todo fiquei participando das mesas redondas e discussões, enquanto a Flávia aproveitou para dormir mais cedo e me encontrou na Urca depois do almoço. No final da tarde ficamos assistindo o restante o Campeonato Brasileiro de Boulder juvenil e qual foi a minha imensa surpresa de encontrar tantos confrades CEMistas na praça. Passado o primeiro dia de obrigações, sabado e domingo seriam de escalada e proveito.

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O Xaxá havia combinado de escalar a chaminé Stop no sábado, mas a chuva que caiu no Rio ao longo da semana (e na noite de sexta) frustou nossos planos novamente (na SBM de 2012 também tinhamos combinado de escalar essa via e também fomos impedidos pelo mau tempo). Com isso, combinamos de fazer uma invasão do CEM na Face Leste do Pão Açúcar.

A ideia era levar um pessoal para fazer o Costão, e algumas outras duplas escalariam algumas das vias das cervejas (Heineken e Bohemia Gelada). Eu e a Flávia chegamos na praça por volta das 7:30 e um grupo grande já havia rumado em direção ao Costão. Xaxá e Julinho nos aguardavam para irmos escalar as cervejas sob um céu muito azul e clima agradável.

Na pista Cláudio Coutinho já avistávamos vários trechos de pedra muito molhados, e as esperanças de fazer as cervejas foram diminuindo. Quando chegamos próximo às bases das vias, vimos algumas línguas dágua que impediam qualquer tentativa de escalada. Decidimos engrossar o caldo e fazermos todos juntos o Costão. Invasão do CEM no Costão!

Como já era de se esperar o Costão estava cheio, e ficamos muito tempo esperando um grupo que estava à nossa frente, e ao mesmo tempo sendo pressionados por um grupo que estava atrás de nós. Conseguimos passar o lance da escalada bem rápido e três duplas foram pela via São Bento (eu e a Flávia, Xaxá e Julinho, Dagó e Carol) e o restante do pessoal subiu caminhando pela trilha.

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A via São Bento tem uma enfiada fixa seguido de um costão até retornar à trilha, e é uma excelente opção pelo visual incrível à cansativa trilha de subida.

Chegamos todos satisfeitos no cume pelo excelente dia de escalada.

Na descida, enquanto conversávamos surgiu o assunto sobre fazer a K2 no dia seguinte. Algumas duplas estavam confirmadas, e o Christian me chamou para fazermos mais uma dupla. Mesmo aos votos do Christian de que ele “não guiaria nenhuma enfiada, mas animava de ir de segundo a via inteira” (hehe) eu aceitei na hora! Há anos eu tenho vontade de fazer essa via, mas a oportunidade não havia aparecido ainda. Além disso, não quis perder a oportunidade de dividir uma cordada com o Christian, com quem nunca antes havia escalado. Combinamos de encontrar no estacionamento das Paineiras por volta das 7:00 para começarmos bem cedo, pois eu ainda teria todo o caminho de volta para Alfenas no domingo mesmo.

Chegamos, paramos os carros e começamos a caminhada de pouco mais de 20 minutos até a base. Chegando na base do diedro inicial, o visual impressiona! Estávamos já na metade superior da parede do Corcovado, com todo o visual da zona sul. Impressionante!

A via K2 é uma das vias mais famosas do Rio de Janeiro. Começa com um diedro perfeito de 5o grau, fixo (que também pode ser feito em móvel), e depois segue por uma escalada em agarras pequenas alternando inclinações, até chegar literalmente no pé do Cristo. No final das contas as outras duplas não foram, e o Alexandre se juntou numa cordada de 3 conosco.

O Alexandre estava muito na pilha pra tentar guiar a primeira enfiada em móvel e lá foi ele. Mas após o 2o grampo ele desistiu da ideia dos móveis e foi costurando os grampos mesmo, até uma parada opcional logo no final da primeira parte do diedro.

O Christian subiu de segundo e eu de terceiro. A via K2 faz uma travessia bem aérea para a esquerda para fugir da segunda parte do diedro (também conehcida como K3, toda em móvel e graduada em 6o grau, e nada convidativo). Decidimos que continuar pelo diedro seria bem complexo, e seguimos a via original mesmo.

Eu entrei guiando a travessia e fiz a P2 logo em seguida, onde normalmente se faz a P1. O Alexandre veio de segundo e aproveitou e tocou a 2a enfiada inteira até a próxima parada. Eu fui de segundo e o Christian de terceiro.

A saída da próxima enfiada seria a do famigerado lance do palavrão, objeto de muitas lendas sobre o perigo, exposição, e por ter sido palco de alguns acidentes já que não tem proteção fixa e uma queda significa bater direto no platô da base em fator 2. Apesar disso, as possibilidades de proteção móvel pareciam boas e o Alexandre pediu para guiar esta também. Lá foi ele, colocou alguns camalots e sem pestanejar passou fácil do lance.
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A última enfiada era uma aderência bem chata de 4o (???) grau, e lá fui eu guiar. Passei muitos apertos nos cristais abaolados de pé e sem nada pras mãos mas consegui mandar e chegar no final da via. Depois disso, uma trlhazinha curta e CUME!!! Pulamos o parapeito de concreto e caímos no meio da multidão!

Final de escalada e final de feriado, valeu muito mais uma vez escalar no Rio de Janeiro. A qualidade da rocha, os visuais, a facilidade de acesso, tudo sempre à favor de uma ótima escalada. Ano que vem tem mais ATM!

Escaladas ATM Rio 01 a 03/05