Relato: Giba.

A Pedra Riscada.
A Pedra Riscada.

A história de escalar na Pedra Riscada começa com uma viagem de sondagem que eu fiz por lá em abril de 2014, quando fiquei deslumbrado com o potencial da pedra pra escaladas de todo nível.

Vista da região.
Vista da região.

Não fosse o monumento apenas um monolito gigantesco (um dos maiores do mundo), a região é também de uma beleza ímpar, um verdadeiro parque de diversões pra escaladores. É pedra pra todo lado.

Giba, Alemão, Alexandre e Waguin rumo à Pedra Riscada.
Giba, Alemão, Alexandre e Waguin rumo à Pedra Riscada.

Pois bem, com a idéia na cabeça, e precisando retornar à capital pra resolver assuntos pessoais, aproveitei para me encontrar com outros dois cabeçudos e conversar sobre a empreitada. Dois dias após, feriado de 1º de maio, encostou na porta de minha casa três escaladores (Alemão, Alexandre e Waguin) espremidos num Jimny, rumo à Pedra Riscada.

 

 

 

Os equipamentos para a empreitada.
Os equipamentos para a empreitada.

Inacreditável termos conseguido acomodar 4 adultos e equipos naquele valente carrinho, mas embora sofrida, a viagem transcorreu com muita descontração e besteirol.

Ao todo, são cerca de 470 kms de BH à Pedra Riscada, com apenas 15 km de estrada de terra em bom estado.

Chegando à base da Pedra Riscada.
Chegando à base da Pedra Riscada.

Em solo Divinense, partimos em busca de informações sobre acessos e pontos para camping, tendo-nos sido dada a autorização para acampar na base da Pedra pelo proprietário da fazenda, Sr. João (casinha vermelha).

Pude notar que a receptividade com os escaladores tem sido muito boa por toda a comunidade, e pudemos ver mais gente estranha, como nós, circulando pela cidadezinha naquela noite, quando decidimos ir à cidade comer algo, após certificarmos que a ração e a água deveria ser racionada para a escalada nos dois dias seguintes. Como bem disse o Alexandre, “cenoura é bom pro sol, é bom racionar”. Vai que ele se zangue, pela falta de oferendas, não é mesmo Alexandre???

No dia seguinte, a logística pensada foi posta em prática e era a seguinte: via “Moonwalker” – face sudoeste – 5 VI+ E3, 1010 metros, 19 cordadas (no limite, foi o que pudemos notar logo de início).

Momento de inspiração.
Momento de inspiração.

Últimos planejamentos e preparativos diante da Pedra.
Últimos planejamentos e preparativos diante da Pedra.

A idéia era subir 2/3 da via, “bivacar” no platô, finalizá-la no dia seguinte, montar os rapeis e descer tudo no mesmo dia. Contudo, iniciada e empreitada, logo na primeira parada, carregado de equipamentos pra bivaque, muita água, agasalho, comida etc, nos demos conta do “trampo” que seria escalar aquele monstro. Estávamos com muito peso e despreparados fisicamente pra tamanho desgaste.

Começando a empreitada.
Começando a empreitada.

1ª tentativa: subir 2/3 da via, “bivacar” no platô, finalizá-la no dia seguinte.
1ª tentativa: subir 2/3 da via, “bivacar” no platô, finalizá-la no dia seguinte.

 

Logo recebi a “ordem” do Waguin pra abandonar a cargueira no meio da parede e segui-lo leve.
Logo recebi a “ordem” do Waguin pra abandonar a cargueira no meio da parede e segui-lo leve.

Ciente de que não íamos muito longe, logo recebi a “ordem” do Waguin pra abandonar a cargueira no meio da parede e segui-lo leve. Assim foi feito.

Alexandre subindo com equipamentos.
Alexandre subindo com os equipos.

Mais à traz, vinham Alexandre e Alemão, também carregados de equipo, arrastando uma pesada mochila. Após a primeira enfiada, concluíram que a mochila (haul bag) não suportaria a abrasividade da rocha, bem como seria “osso” rebocar todo aquele peso pra cima. Assim, decidiram também eliminar o peso e subir leve.

Posso dizer que a via tem uma bela linha, bem óbvia pela canaleta dágua, com agarras limpas, livres de limbo ou sujeira, mas com muitos cristaizinhos que desprendem da rocha durante a escalada, o que torna a subida perigosa pra quem vem à baixo.

Em várias situações ouvimos o grito de “Peeeeeeeedrahhhh” ecoar pelas canaletas e logo após descia uma chuva de pedrinhas sobre nós. Eram pontas de quartzito das cracas que partiam nas pisadas. Eu mesmo levei uma vaca, sem maiores danos, todavia.

Certa hora, o grito veio mais forte e repetido. Quando olhei pra cima, era uma “senhora” laca “kikando” e se partindo na rocha, tudo acima de nós e por toda a via abaixo. Por sorte, após se partir em vários pedaços, os maiores saíram da canaleta e seguiram seu destino.

A via escolhida.
A via escolhida.

Mas não eram só pedras que rolavam de cima. Também pudemos evidenciar que outros objetos, como óculos e rádio comunicador, sofrem a fatídica ação da gravidade. Tudo, é claro, quando de posse do nosso estimado e colendo amigo Eduardo, vulgo Alemão, que os deixou despencarem de uns 200 metros. Pobre rádio, pobre óculos.

O resumo da empreitada foi que abortamos a escalada (Waguin e Giba) na 4ª parada, e logo iniciamos o rapel, passando pela dupla que nos seguia abaixo, finalizando o rapel na base do monolito às 15 horas do mesmo dia.

A dupla “AA”, que vinha duas cordadas abaixo, decidiu seguir escalando, mas concluiu que seria prudente abandonar também na 4ª parada. Estávamos todos bem cansados e com o moral baixo por termos subestimado aquela via e superestimado nossa capacidade física.

Contudo, a certeza da sábia decisão de abortar a missão foi confirmada quando todos nos reunimos, às 17 horas, na base da pedra, livre de maiores lesões, com um pontinho de frustração, mas honrados e felizes por termos tido a oportunidade de escalar na famosa Pedra Riscada.

Fim.

 

Giba, maio de 2014.

Escalada na Pedra Riscada – 01/05